Hoje eu percorri alguns caminhos, escadarias, becos e entrei
em alguns lares da comunidade do Cantagalo, em Copacabana. O primeiro
pensamento, ao me deparar com aquele complexo populacional, foi esta frase: “que
Deus abençoe as nobres almas que aqui habitam”.
Enquanto eu era guiada nos afazeres diários dos
profissionais de saúde pública, que conhecem aquele lugar tão bem, eu me sentia
transportada para outra realidade. Ruas que eu não precisava olhar antes de
atravessar, porque eram apenas corredores e escadarias, simples. As casas têm
as mais diversas proporções, conformações e arrumações.
Vi uma casa com santos católicos, vi uma casa com santos da
Umbanda, vi uma casa sem santos, vi uma casa com uma vista para o Cristo, vi
uma casa com vista para outra casa, vi, ainda uma casa sem vista.
Em todas as casas fui bem acolhida. Casas de pessoas que não
merecem outra denominação além de “nobres”. Pois é nobre quem vive de forma
humilde, quem supera as limitações e consegue conviver com até 4 pessoas em um cômodo
dividido por cortinas. É nobre quem tem coragem de pedir ajuda com sinceridade.
Em um ambiente tão inóspito – com criminalidade, abandono, desmazelo – recebi
sorrisos, informações, paciência com a minha condição de aluna.
Em um ambiente tão enfermo e carente de cuidados, há
famílias e pessoas que se amam e querem bem. Pessoas que não tiveram a
oportunidade de perseguir seus sonhos de meninice, mas que não se amuaram com
as asas cortadas. Aprenderam a trabalhar com o que podiam.
Sim, abençoe, Senhor, as nobres almas que ali habitam.
Vítimas e algozes se misturam em todos os ambientes, mas sente-se um apego pela
dignidade em cada pessoa de bem que ali cresceu, que não se sente em outros
lugares da cidade Maravilhosa.

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